Mais uma vez a Rede Globo recusou a gravar uma cena em que dois homens se beijariam. O polêmico beijo gay seria exibido no último capítulo da novela Duas Caras.
Mas o casamento aconteceu de forma natural. O autor mostrou que a união civil entre pessoas do mesmo sexo já é uma realidade. Em abril deste ano o jornalista Felipeh Campos que ficou conhecido em participar do programa Qual é a Música? no SBT, se casou com o produtor de moda Rafael Scapucim em São Paulo. A cerimônia religiosa foi celebrada pelo Pai Cido de Oxum que ministrou o ritual orientado pelo candomblé, religião dos noivos que subiram ao altar vestindo batas brancas e descalços, trazendo nas mãos terços de pimenta vermelha. Na cabeça, ambos ostentavam coroas de folhas enfeitadas com a Ecodidé.
Na novela global, Aguinaldo Silva inspirou a oficialização da união neste fato real, Bernardinho (Thiago Mendonça) e Carlão (Gui Palhares) assinaram contrato de união estável e não religiosa como a de Felipeh e Rafael que antes já haviam assinado este contrato de união. Bernardinho e Carlão estavam vestidos da mesma forma do casal real e a cerimônia aconteceu sob os olhares dos amigos da favela da Portelinha. "O sexo dos noivos não importa, o que interessa é o amor. A natureza não tem sexo", resumiu Pai Cido de Oxum.

Marcelo Lima, presidente da Adhons
Uniões como estas estão presentes em Sergipe, o presidente da Associação de Defesa Homossexual de Sergipe (Adhons), Marcelo Lima Menezes acredita que as telenovelas ajudam a quebrar o preconceito e encoraja os gays saírem do armário e assumirem uma união estável. “Graças às novelas, cada dia que passa à sociedade está menos preconceituosa. Os autores trabalham a questão que a união entre os mesmos sexos é normal. Nos últimos anos todas as novelas do horário nobre estão dando espaço a homossexualidade, abordando o assunto e ajudando acabar com a homofobia. O homossexual de classe média sofre menos preconceito. O reality show da Rede Globo, BBB, ajudou o país a pensar diferente sobre o gay quando o Jean Willys participou do programa e mostrou que o gay é um ser humano como os outros que tem família, profissão, paga impostos, vota e merece respeito.Estava torcendo para o beijo gay acontecer na novela, é comum a gente assistir cenas bem mias quentes do que um beijo carinhoso sem maldade, é uma questão cultural que precisa ser trabalhada. Aqui em Sergipe diversos casais já oficializaram a união”, garante.
União Estável
Um exemplo desta união é o casal que usam pseudônimos de Hugo e Fábio que estão juntos há 6 anos e agora decidiu procurar um cartório para assinar o contrato de união estável. “Não escolhi ser gay, nasci com esta orientação sexual e desde cedo comecei a sofrer a discriminação. Meu pai sempre dizia que eu era diferente dos meus irmãos, porque nunca me interessei por futebol e carro como os outros garotos. Ele sempre gritava comigo e dizia que não queria ter um filho gay. Na época eu nem sabia o que era isso, ficava muito assustado e ficava reservado. Fui uma criança frustrada. Passei minha infância me isolando dos outros. Eu tinha vergonha das pessoas por me achar diferente. Com este complexo, tive uma adolescência complicada. Nesta fase meu pai morreu e eu fiquei muito deprimido. Com o passar do tempo fui crescendo e me conhecendo, passei a me aceitar e pude contar com o apoio da minha mãe que foi fundamental. Decidi ir em busca da felicidade. Depois de amadurecer a idéia, já com 18 anos fui a uma boate, onde conheci meu primeiro namorado com quem passei a morar em seguida. Nos identificamos muito um pelo outro. Depois de um ano decidimos morar juntos e formar uma família. Agora decidimos oficializar a união como Bernardinho e Carlão”, afirma Hugo.
Fábio diz que a idéia partiu de seu companheiro. “Ele me fez o convite e eu adorei, vamos fazer uma festa para nossos amigos e família. Já estamos juntos há 6 anos e queremos adotar uma criança para completar nossa família”, vibra.
A mãe de Fábio está de acordo com a decisão do casal e expressa sua felicidade. “No início foi muito difícil aceitar esta realidade, mas o importante para mim sempre foi a felicidade dos meus filhos. Hugo sofreu muito. Ele sempre foi um ótimo filho, quero o seu bem”, orgulha-se Hélia
Silva.
Advogada Cristiane Rabelo
Para a advogada Cristiane Rabelo, que trabalha no Centro de Referência de Prevenção e Combate à Homofobia inaugurado em Aracaju em abril, acredita que todos têm direito ao casamento. “Acho que todo ser humano tem direito do casamento civil e religioso. Todos devem ser tratados da mesma forma sem discriminação. Na Vara da Família este assunto já é uma realidade familiar. Existe uma diversidade sexual, então promovemos meios para não haver diferenças entre homossexuais e heterossexuais. A Lei Maria da Penha defende as uniões homoafetivas e devemos respeitá-las”, defende.
Está afirmado em lei federal que as uniões homoafetivas constituem entidade familiar.
A Lei 11.340/96, a chamada Lei Maria da Penha, que cria mecanismos para coibir a violência doméstica contra a mulher, modo expresso, enlaça as relações homossexuais. Isto está dito no seu artigo 2º: “Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual [...] goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana”. O parágrafo único do artigo 5º afirma que independem de orientação sexual todas as situações que configuram violência doméstica e familiar.
No momento em que é afirmado que está sob o abrigo da lei a mulher, sem se distinguir sua orientação sexual, alcançam-se tanto lésbicas como travestis, transexuais e transgêneros que mantêm relação íntima de afeto em ambiente familiar ou de convívio.
Como a proteção é assegurada a fatos que ocorrem no ambiente doméstico, isso quer dizer que as uniões de pessoas do mesmo sexo são entidade familiar.
Preconceito
Apesar desta grande evolução, os homossexuais continuam sendo discriminados e lutam contra o preconceito. De acordo com o grupo gay da Bahia, o Brasil é o campeão mundial de intolerância homossexual. Em 2007 em todo o país foram registrados 122 gays foram assassinados. Ate abril deste ano 49 assassinatos já foram registrados no Brasil. O Nordeste é a região que apresenta o maior número de agressão de violência contra este grupo é o Nordeste. “Como disse Jesus Cristo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, apela Léo Mendes, Secretário de Comunicação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros –ABGLT.

Centro de Referência de Prevenção e Combate à Homofobia
Centro de Referência de Prevenção e Combate à Homofobia
Observando esta realidade, o Governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), inaugurou o Centro de Referência de Prevenção e Combate à Homofobia. O projeto, que é fruto de uma parceria com o Governo Federal, visa proporcionar à população representada por gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros (GLBTT), vítimas de violência e preconceito, o acolhimento, encaminhamento e atendimento psicossocial e jurídico. A sede fica localizada na rua Campos, 82, bairro São José.
“Os números são assustadores. Já foram registrados 2 assassinatos em Sergipe este ano contra travestis. Este centro é muito importante para a sociedade para defender os homossexuais que sofrem calados contra a violência que muitas das vezes é oculta. Muitos gays têm medo do agressor e não denuncia por constrangimento e falta de segurança, além de medo de ser descriminado até mesmo pelas autoridades, família e colegas de trabalho. A pessoa que é agredida deve se dirigir ao centro e prestar queixa tendo a garantia que o nome será preservado”, explica o Delegado de Polícia da 5ª Divisão de Homicídios, Mário de Carvalho Leony.

O centro funciona com o atendimento psicológico, jurídico e social. “Pretendemos estender os nossos serviços para todo o público GLBTT. Estamos trabalhando com parceiras de universidades, defensorias públicas e OAB. O centro está aberto para acolher e atender as vítimas da discriminação e violência, assim como as família e agressores”, garante a psicóloga que é coordenadora do Centro, Cláudia Andrade.
O atendente de uma lanchonete identificado por GRS procurou o Centro de Referencia e Combate a Homofobia após ser demitido. “Fui dispensado do trabalho após revelar minha orientação sexual. É um absurdo este tipo de discriminação nos dias de hoje. Sou um profissional e exerço de forma competente minha profissão. Vim ao centro pedir orientações para processar a empresa, me sinto lesado”, desabafa.
“O setor jurídico é muito importante para orientar o homossexual sobre os seus direitos e encaminhá-lo para a defensoria pública que atende a demanda. Nós acompanhamos o desfecho de cada caso. Na maioria das vezes, a discriminação acontece pela falta de informação que gera o preconceito. Realizamos uma política educacional no centro para ajudar acabar com o preconceito, orientamos à população como lidar com esta comunidade e também auxiliamos eles que sofrem com o preconceito. Chamar um travesti pelo seu nome de batismo é preconceito e muita gente não sabe disso, estamos trabalhando em prol desta conscientização”, esclarece a advogada Cristiane Rabelo.
Assim como GRS, a estudante que usou o pseudônimo Carla, também sofreu preconceito no trabalho. “As pessoas me olhavam com diferença e aos poucos foram se afastando de mim. Minha vontade era pedir demissão. Decidi procurar ajuda psicológica para me ajudar a enfrentar e vencer este preconceito. Após dois meses de terapia já me sinto bem melhor”, desabafa.

Vereadora Rosangela Santana
Dia municipal contra a homofobia
A vereadora de Aracaju, Rosangela Santana autora do projeto de Lei que instituiu o dia municipal contra a homofobia na capital sergipana, dia 17 de maio, se destaca em defesa aos direitos dos homossexuais. “Foi aprovado um projeto de lei criado por mim que garante direito a pensão a homossexual. É mais uma conquista de igualdade entre o homo e o hétero”, vibra a vereadora.
Pela primeira vez na história do país, o IBGE incluiu em sua pesquisa de contagem populacional o número de casais homossexuais que dividem o mesmo teto nas residências do país. Em Sergipe, um total de 276 pessoas, sendo 136 homens e 140 mulheres, declararam-se cônjuges/companheiros de uma pessoa do mesmo sexo responsável pelo domicílio onde vivem.